De Tbilisi, na Geórgia, a Kuala Lumpur, na Malásia, a Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis está a combinar a partilha de experiências regulatórias com o acompanhamento directo da cadeia internacional de fornecimento do projecto Kaminho.
A actividade internacional da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG) ganha duas dimensões distintas esta semana: a participação no debate global sobre regulação energética e o acompanhamento da fabricação de equipamentos destinados ao projecto Kaminho, na Malásia.
Os dois movimentos ocorrem num momento em que Angola procura consolidar a atractividade do sector petrolífero, assegurar maior eficiência na regulação e, simultaneamente, transformar novos investimentos offshore em oportunidades concretas para a indústria e para a cadeia de fornecimento nacional.
Regulação energética no centro do debate internacional
Em Tbilisi, na Geórgia, a ANPG participa no IX World Forum on Energy Regulation (WFER IX), realizado de 21 a 24 de Setembro, sob a égide da International Confederation of Energy Regulators (ICER).
O fórum reúne reguladores, especialistas, representantes de organizações internacionais e outros actores do sector energético para discutir os desafios associados à transformação dos sistemas energéticos e à evolução dos modelos regulatórios.
Entre os temas em discussão estão a segurança energética, a transição para sistemas mais sustentáveis, o investimento em infra-estruturas, a digitalização, a cibersegurança, a inteligência artificial e a protecção dos consumidores.
A presença da ANPG neste espaço permite apresentar a experiência angolana e, simultaneamente, acompanhar modelos regulatórios adoptados por outros mercados.
Para um país cuja indústria petrolífera continua a desempenhar um papel central na economia, a troca de experiências assume particular importância perante a necessidade de conciliar atracção de investimento, previsibilidade regulatória, desenvolvimento de recursos e reforço da participação nacional na cadeia de valor.
Da regulação à execução de projectos
Enquanto participa no debate internacional sobre regulação, a ANPG acompanha, na Ásia, uma etapa concreta da execução de um dos projectos mais relevantes para a renovação da produção petrolífera angolana.
Na Malásia, representantes da Agência acompanham o fabrico de equipamentos submarinos destinados ao projecto Kaminho, desenvolvimento do Bloco 20/11, operado pela Total Energies em parceria com a PETRONAS e a Sonangol.
O Kaminho representa o primeiro desenvolvimento petrolífero offshore na Bacia do Kwanza e prevê uma produção de aproximadamente 70 mil barris de petróleo por dia. O investimento associado à Decisão Final de Investimento é de cerca de 6 mil milhões de dólares norte-americanos, com o início da produção previsto para 2028.
A ligação entre o acompanhamento regulatório e a execução técnica é particularmente relevante num projecto desta dimensão. A fabricação e integração dos equipamentos envolvem uma cadeia internacional de fornecedores, enquanto Angola procura assegurar que uma parte crescente das actividades associadas ao desenvolvimento permaneça no país.
Kaminho e a componente submarina
O projecto está a ser desenvolvido em águas profundas da Bacia do Kwanza e será suportado por uma rede submarina ligada à futura FPSO Kaminho.
A unidade terá capacidade para armazenar aproximadamente 1,6 milhões de barris de petróleo, de acordo com a informação divulgada pela ANPG aquando do início da conversão do FPSO, em 2025.
A conversão da unidade começou na China, nos estaleiros da China Merchants Heavy Industry (CMHI), em Nantong, com a Saipem como principal empreiteira.
O acompanhamento das actividades de fabricação na Ásia permite à concessionária nacional acompanhar uma fase crítica da cadeia de execução e verificar a evolução dos equipamentos que serão posteriormente integrados no sistema de produção offshore.
O desenvolvimento do Kaminho envolve ainda uma componente significativa de fabricação em Angola. Em 2026, a Petromar concluiu a construção de uma estrutura protectora do riser do FPSO, com 80 metros de comprimento e 300 toneladas, fabricada nos seus estaleiros no Ambriz, província do Bengo.
Conteúdo local ganha dimensão internacional
A combinação entre fabricação internacional e produção nacional evidencia uma das características do actual ciclo de projectos offshore em Angola: a participação local não se limita necessariamente ao local onde o equipamento é fabricado.
No caso do Kaminho, a Sonangol estima que o desenvolvimento do projecto possa gerar mais de 40 milhões de horas-homem de trabalho em Angola ao longo dos seus 20 anos de operação, envolvendo empresas e estaleiros nacionais.
Já a fabricação da estrutura protectora do riser pela Petromar constitui um exemplo concreto de equipamento associado a um projecto de águas profundas produzido localmente. Segundo a ANPG, esta actividade reforça o ecossistema industrial nacional e cria capacidade para apoiar operações numa nova bacia petrolífera.
O desafio passa, assim, por transformar a dimensão dos investimentos offshore em competências industriais, técnicas e humanas que permaneçam no país para além de um único projecto.
Uma ANPG entre o regulador e a transformação da indústria
A participação da ANPG no WFER IX e o acompanhamento do Kaminho na Malásia revelam duas frentes complementares da actividade da concessionária nacional.
Num plano, a Agência procura acompanhar o debate internacional sobre como regular um sector energético em transformação, marcado por novas tecnologias, exigências de sustentabilidade, segurança energética e necessidade de investimento.
Noutro, acompanha no terreno a execução de projectos que materializam a estratégia de reposição e crescimento da produção petrolífera angolana.
A questão central para Angola será fazer com que essas duas dimensões avancem em paralelo: um ambiente regulatório capaz de atrair e dar previsibilidade ao investimento e uma indústria nacional capaz de capturar uma parcela crescente do valor gerado por esse investimento.
O Kaminho surge, neste contexto, como um dos principais testes dessa capacidade. Além de representar a entrada da Bacia do Kwanza na produção offshore, o projecto coloca à prova a capacidade de Angola em combinar capital internacional, tecnologia, fornecedores globais, infra-estruturas nacionais e mão-de-obra especializada.
Da regulação internacional à fabricação de equipamentos submarinos, a ANPG acompanha diferentes etapas dessa transformação — enquanto Angola procura converter o próximo ciclo de investimentos no Oil & Gas em produção, conhecimento e capacidade industrial nacional.