Balanço do terceiro trimestre surge após uma AOG 2026 marcada por novos investimentos, exploração de fronteira, gás e refinação
O terceiro trimestre de 2026 poderá ser um dos períodos mais importantes para compreender a direcção que Angola pretende dar à sua indústria petrolífera.
Nos dias 29 e 30 de Outubro, o Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás (MIREMPET) vai apresentar o balanço do mercado de petróleo bruto referente ao terceiro trimestre, reunindo representantes do Governo e dos principais operadores da indústria.
A apresentação acontece poucas semanas depois da Conferência Angola Oil & Gas (AOG) 2026, realizada em Luanda, onde o sector definiu uma agenda assente em três desafios fundamentais: sustentar a produção actual, descobrir novos recursos e transformar uma maior parcela do valor dos hidrocarbonetos dentro de Angola.
Mais do que uma coincidência temporal, os dois momentos estão ligados. As decisões e compromissos assumidos durante a AOG ajudam a explicar aquilo que estará agora sob avaliação no balanço do MIREMPET.
AOG 2026: o compromisso com novos barris
Realizada entre 8 e 10 de Setembro, a AOG 2026 terminou com 11 acordos formalizados, abrangendo novas áreas de exploração, investimentos em campos maduros, financiamento, gás e redução de emissões.
O resultado reforçou a mensagem de que Angola pretende manter o petróleo como um dos pilares da economia, mas procura fazê-lo através de uma estratégia diferente: combinar a recuperação dos activos existentes com a abertura de novas fronteiras exploratórias.
A Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG) apresentou na conferência o próximo ciclo de investimento do upstream angolano, assente precisamente nessa dupla abordagem.
De um lado, está a maximização dos campos maduros, através de novas perfurações, revitalização de activos, reactivação de poços e melhoria das taxas de recuperação. Do outro, a exploração de bacias ainda pouco exploradas, particularmente nas áreas de fronteira.
A estratégia enquadra-se na Estratégia de Hidrocarbonetos de Angola 2025–2050, que estabelece como objectivo manter uma produção superior a um milhão de barris por dia até 2030 e elevar esse nível para cerca de 1,2 milhões de barris por dia entre 2031 e 2040.
É precisamente aqui que o balanço do terceiro trimestre ganha relevância: os novos investimentos estão a conseguir transformar-se em capacidade produtiva?
Novos acordos procuram acelerar a exploração
Na AOG 2026, a ANPG formalizou novos acordos para exploração nas bacias do Kwanza e do Congo.
Entre eles estão contratos para os Blocos 19, 34 e 35, em águas profundas, com Shell, Equinor e Sonangol E&P; acordos para os Blocos 8 e 22, na Bacia do Kwanza, com Shell, QatarEnergy e Sonangol; e novos contratos envolvendo os Blocos 33/24, 17, 27, 32 e 21.
Os compromissos incluem reprocessamento de dados sísmicos e perfuração de novos poços de exploração.
O movimento demonstra que o esforço de Angola não está concentrado apenas na produção imediata. Existe uma preocupação crescente com a reposição das reservas e a construção da produção da próxima década.
Essa estratégia ganhou força ainda antes da AOG, com novas descobertas no offshore.
No Bloco 0, por exemplo, uma descoberta anunciada em Agosto revelou uma coluna de óleo e gás condensado superior a 600 metros e cerca de 90 metros de espessura líquida produtiva. A possibilidade de ligação às infra-estruturas existentes poderá reduzir investimentos adicionais e acelerar a monetização do recurso.
Já no Bloco 15, a ANPG, a ExxonMobil e os parceiros anunciaram a descoberta de Vicango Este-01, reforçando o potencial de uma área considerada estratégica para o upstream angolano.
Campos maduros continuam a ser decisivos
Enquanto Angola procura novas fronteiras, os campos actualmente em produção continuam a representar a principal fonte de barris.
Foi nesse contexto que, durante a AOG 2026, foram assinadas novas adendas aos contratos dos Blocos 15 e 31, destinadas a optimizar o desenvolvimento dos campos e contribuir para o aumento da produção nacional.
No Bloco 15, a nova adenda contempla oportunidades de desenvolvimento complementar nos campos Mondo, Dikanza, Hungo e Likembe. No Bloco 31, a alteração contratual procura criar condições para novos investimentos na área.
A mensagem é clara: Angola não pode esperar apenas pelas novas descobertas para aumentar a produção.
É necessário extrair mais dos activos que já existem enquanto se prepara a próxima geração de projectos.
O projecto Greater PAJ é um exemplo desta lógica. A decisão final de investimento, avaliada em 5,1 mil milhões de dólares, representa um desenvolvimento integrado entre os Blocos 31 e 31/21, utilizando infra-estruturas partilhadas para tornar economicamente viáveis recursos de diferentes áreas.
Kaminho e a produção que vem a seguir
Outra peça importante deste novo ciclo é o projecto Kaminho, no Bloco 20.
Com uma decisão final de investimento estimada em cerca de 6 mil milhões de dólares, o projecto deverá atingir uma produção média de aproximadamente 70 mil barris por dia e prevê o início da produção de gás no bloco em 2028.
Na AOG, o Governo voltou a colocar o Bloco 20 entre os projectos estruturantes para o futuro da indústria nacional.
O projecto representa, por isso, mais do que uma nova unidade de produção: é uma das respostas de Angola ao desafio de substituir, progressivamente, a produção perdida com o declínio natural dos campos maduros.
O gás deixa de ser apenas um subproduto
Se o petróleo continua a dominar a indústria, a AOG 2026 mostrou que o gás está a ganhar uma posição diferente na estratégia energética nacional.
Durante o evento, o Plano Director do Gás esteve no centro das discussões sobre a criação de uma economia do gás, com destaque para a necessidade de desenvolver infra-estruturas de escoamento e transformar as reservas existentes em actividade industrial.
O objectivo passa por utilizar o gás como matéria-prima para sectores como fertilizantes, petroquímica e produção de electricidade, criando novas cadeias de valor dentro do país.
A visão apresentada na AOG aponta para um potencial investimento de cerca de 13 mil milhões de dólares nos segmentos intermédio e a jusante, distribuído por cinco pólos, como parte da estratégia de desenvolvimento da economia do gás.
É uma mudança relevante: o gás deixa de ser visto apenas como um recurso associado à produção de petróleo e passa a ser encarado como matéria-prima para industrialização.
Refinação: produzir dentro de Angola
A mesma lógica está presente no downstream.
A Refinaria de Cabinda, que entrou em produção em Março, operava em Agosto com um processamento de 15.750 barris por dia e já tinha produzido e expedido derivados para o mercado interno.
No Lobito, a construção da refinaria, com capacidade projectada de 200 mil barris por dia, apresentava uma execução global de 25%, segundo o último balanço divulgado pelo MIREMPET.
O projecto representa um investimento estimado em 3,8 mil milhões de dólares e deverá produzir derivados como gasolina, gasóleo, GPL e Jet A1.
A ambição é ainda maior: Angola pretende atingir uma capacidade de refinação de 425 mil barris por dia, através das unidades de Luanda, Cabinda, Lobito e Soyo.
O objectivo é reduzir a dependência das importações de produtos refinados, cuja factura atingiu cerca de 1,96 mil milhões de dólares apenas no primeiro semestre de 2026.
O verdadeiro teste começa agora
É neste cruzamento de factores que o balanço do terceiro trimestre deverá ser lido.
Angola tem novos acordos de exploração, novas descobertas, investimentos em campos maduros, projectos de grande dimensão como o Kaminho, uma refinaria já em operação, outra em construção e uma estratégia para transformar o gás numa nova plataforma industrial.
Mas o desafio é transformar anúncios, contratos e investimentos em barris, metros cúbicos, derivados e receitas.
A AOG 2026 mostrou que existe interesse dos investidores e que novas oportunidades estão a ser colocadas sobre a mesa. O balanço do MIREMPET terá agora a oportunidade de mostrar até que ponto esses compromissos estão a produzir resultados concretos.
Para Angola, a questão já não é apenas quanto petróleo ainda existe no subsolo.
É saber quanto desse recurso poderá ser produzido competitivamente, durante quanto tempo e quanto valor poderá permanecer no país.
O petróleo continuará a desempenhar um papel central na economia angolana, como afirmou o ministro Diamantino Azevedo durante a abertura da AOG 2026. Mas a direcção definida na conferência mostra que o futuro da indústria será medido não apenas pelos barris produzidos, mas também pela capacidade de explorar novas fronteiras, desenvolver o gás, refinar localmente e criar uma cadeia de valor mais integrada.
É esse o cenário que o balanço do terceiro trimestre deverá ajudar a desenhar: Angola não está apenas a tentar produzir mais petróleo; está a tentar preparar o que vem depois dos barris de hoje.