Com sede na Nigéria, o novo banco continental, estabelecido pela Afreximbank e pela APPO, deverá começar a financiar projectos em 2027. Angola está entre os mercados identificados para a primeira fase de investimentos. Para NJ Ayuk, Presidente Executivo da Câmara Africana de Energia, a instituição representa a concretização de uma visão defendida desde 2019: construir uma estrutura financeira capaz de colocar o futuro energético africano nas mãos dos próprios africanos.
África deu um passo significativo na construção de uma estrutura financeira própria para o desenvolvimento do seu sector energético. A African Export-Import Bank (Afreximbank) e a African Petroleum Producers’ Organization (APPO) anunciaram, a 31 de Outubro de 2026, em Abuja, na Nigéria, o estabelecimento formal do Africa Energy Bank (AEB), uma instituição financeira pan-africana com um capital autorizado de 5 mil milhões de dólares.
A criação do banco foi formalizada durante a sua primeira Assembleia Geral, realizada na capital nigeriana, que acolhe a sua sede. A iniciativa surge num contexto de crescentes dificuldades de acesso ao financiamento internacional para projectos de petróleo e gás, numa altura em que vários financiadores tradicionais têm vindo a restringir a exposição a investimentos em combustíveis fósseis.
A nova instituição pretende responder a esse défice de financiamento, mobilizando capital africano e internacional para projectos que abrangem toda a cadeia de valor da energia, desde a exploração e produção de petróleo e gás até ao transporte, processamento, refinação, distribuição, geração e transmissão de electricidade, infra-estruturas e desenvolvimento industrial.
Na mesma reunião, foi aprovada a nomeação de Helmy Ghazi, antigo vice-presidente executivo do HSBC Bank Egypt, como primeiro Presidente do Africa Energy Bank. Foi igualmente constituído o Conselho de Administração inaugural, com representantes dos sectores público e privado e de instituições africanas.
Uma visão defendida desde 2019
A criação do Africa Energy Bank representa também a concretização de uma proposta que NJ Ayuk, Presidente Executivo da African Energy Chamber (AEC), afirma defender desde 2019: a necessidade de construir uma verdadeira fortaleza financeira africana, capaz de financiar as prioridades energéticas do continente.
Numa declaração sobre o estabelecimento da instituição, Ayuk recordou que a ideia foi inicialmente recebida com cepticismo, mas que a persistência em torno dessa visão permitiu chegar ao actual resultado.
«Em 2019, defendi a criação de uma fortaleza financeira: uma instituição africana capaz de financiar o próprio futuro energético de África. Os críticos desvalorizaram a ideia. Nós continuámos a trabalhar. Agora, o Africa Energy Bank é uma realidade», afirmou.
Para o responsável, a importância da instituição ultrapassa a dimensão financeira. Trata-se de uma afirmação de soberania económica, na medida em que coloca nas mãos de instituições e investidores africanos uma maior capacidade de decidir quais os projectos que devem avançar e como devem ser financiados.
«Isto não é apenas mais um banco. É uma declaração de soberania económica», sublinhou.
A posição de Ayuk assenta no argumento de que África não pode depender exclusivamente de instituições externas para desenvolver os seus recursos naturais, sobretudo quando enfrenta necessidades urgentes de acesso à energia, industrialização e criação de emprego.
Segundo os dados que apresenta, com base em estimativas da Agência Internacional de Energia (IEA), o continente necessita de mais de 200 mil milhões de dólares em investimentos anuais no sector energético até 2030. Em contrapartida, cerca de 600 milhões de africanos continuam sem acesso à electricidade e aproximadamente mil milhões não dispõem de soluções de cozinha limpa.
Neste contexto, o responsável defende que o financiamento energético deve considerar as necessidades específicas das economias africanas, incluindo o desenvolvimento responsável dos recursos petrolíferos e de gás natural, paralelamente à expansão das energias renováveis.
«África não pode industrializar-se com base em slogans. Precisa de electricidade fiável, gás natural, petróleo, energia hidroeléctrica, energias renováveis, redes de transmissão, armazenamento, refinarias, oleodutos, portos e capacidade industrial», defendeu.
Ayuk considera que exigir desenvolvimento económico aos países africanos, ao mesmo tempo que se restringe o acesso ao financiamento para o aproveitamento dos seus recursos de hidrocarbonetos, representa uma forma de exclusão económica. Na sua perspectiva, os países devem poder desenvolver os seus recursos de forma responsável, transparente e em benefício das respectivas populações.
Angola entre os mercados prioritários
Um dos aspectos de maior interesse para a indústria energética angolana é a inclusão de Angola entre os mercados previstos para a fase inicial de implementação do Africa Energy Bank.
De acordo com informações divulgadas pela African Energy Chamber, o programa de arranque deverá contemplar dez projectos de referência (flagship projects), tendo a Nigéria, Angola e a Líbia entre os mercados identificados para esta primeira fase.
O início do financiamento está previsto para o princípio de 2027, seguindo um modelo baseado em corredores energéticos, que deverá contemplar projectos de geração de electricidade, cozinha limpa, infra-estruturas energéticas e instalações destinadas ao abastecimento dos mercados internos e à exportação.
Para Angola, cuja economia mantém uma forte ligação à indústria petrolífera, a possibilidade de acesso a uma estrutura financeira africana dedicada ao sector poderá representar uma oportunidade para apoiar projectos de exploração e produção, infra-estruturas de transporte, refinação, distribuição e diversificação da matriz energética.
A inclusão do país entre os mercados prioritários constitui, assim, um elemento relevante para o posicionamento de Angola no novo modelo de financiamento energético continental. Contudo, a identificação como mercado-alvo não significa, por si só, que os projectos angolanos já tenham financiamento aprovado. A concretização das oportunidades dependerá da apresentação, avaliação e aprovação das respectivas propostas de investimento.
Um instrumento para reduzir a dependência externa
O Africa Energy Bank foi concebido como uma instituição financeira independente e supranacional, com participação maioritária da APPO e da Afreximbank. O seu modelo prevê a mobilização de recursos provenientes de governos, empresas petrolíferas nacionais, fundos soberanos, instituições financeiras e investidores privados.
Além do financiamento de projectos de petróleo e gás, o banco pretende apoiar o desenvolvimento de capacidade local de processamento e refinação, estimular o comércio intra-africano de petróleo bruto, gás natural e produtos refinados e contribuir para a redução da dependência das importações de combustíveis.
A instituição deverá igualmente apoiar investimentos em geração e transmissão de electricidade, reconhecidos como fundamentais para a industrialização e para responder às crescentes necessidades energéticas do continente.
A sua criação surge numa altura em que a Afreximbank tem vindo a reforçar a participação africana em operações financeiras de grande dimensão no sector energético. Entre as operações recentes destacam-se o compromisso de subscrição de 2,5 mil milhões de dólares numa operação de financiamento sindicada de 4 mil milhões de dólares para a Dangote Petroleum and Petrochemicals e uma linha de crédito de 750 milhões de dólares à Heirs Energies.
Estas operações demonstram a capacidade de instituições financeiras africanas para participar em operações de financiamento de grande escala e reforçam a ambição de ampliar essa capacidade através de uma instituição especificamente orientada para o sector energético.
O desafio começa agora
Apesar das expectativas em torno da sua criação, o Africa Energy Bank não deverá, por si só, eliminar o défice de financiamento energético do continente. O capital autorizado de 5 mil milhões de dólares representa apenas uma parcela das necessidades de investimento estimadas para África, tornando indispensável a mobilização de recursos adicionais e a participação de investidores internacionais.
A solidez da governação, a transparência dos processos de contratação, a disciplina comercial na concessão de crédito e a capacidade de seleccionar projectos economicamente viáveis serão determinantes para a credibilidade e sustentabilidade da instituição.
NJ Ayuk reconhece que o estabelecimento do banco é apenas o início de um processo mais amplo. O responsável, que evita reivindicar mérito pessoal pela concretização da iniciativa, considera que o verdadeiro sucesso será medido pela capacidade de transformar o financiamento em infra-estruturas, produção, acesso à energia e oportunidades económicas.
«Não reivindico qualquer mérito pessoal. Sou uma testemunha, um irmão nesta luta e um servidor de uma convicção: África deve construir um sector energético independente e resiliente, capaz de sustentar uma prosperidade abrangente», afirmou.
A mensagem que deixa é clara: o continente precisa de construir centrais eléctricas, oleodutos, refinarias, terminais, redes de distribuição e indústrias, utilizando de forma responsável os recursos energéticos disponíveis e mobilizando capital para as suas próprias prioridades.
Com o Africa Energy Bank formalmente estabelecido, África passa a dispor de mais um instrumento para procurar responder aos desafios de financiamento do seu sector energético. A expectativa estará agora concentrada na entrada em funcionamento da instituição, no arranque das primeiras operações em 2027 e, particularmente, na capacidade de transformar esta ambição continental em projectos concretos, incluindo nos mercados de Angola.