Por mais de duas décadas, analistas internacionais têm anunciado o declínio iminente da indústria petrolífera. Contudo, em 2025, o petróleo continua a ocupar uma posição central na economia mundial. A questão já não é saber quando o petróleo desaparecerá, mas como os países produtores conseguirão adaptar-se a uma transição energética que avança a ritmos diferentes consoante as regiões e as necessidades económicas. Para Angola, esta realidade tem implicações profundas.
TEXTO NELSON RODRIGUES E JOSÉ MANUEL
A narrativa da substituição acelerada dos combustíveis fósseis pelas energias renováveis tem sido frequentemente confrontada pela realidade dos mercados. Apesar dos avanços registados na energia solar, eólica e na mobilidade eléctrica, a procura global por petróleo permanece robusta.
Dados recentes da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que o consumo mundial continua próximo dos máximos históricos, impulsionado sobretudo pelas economias emergentes da Ásia, Médio Oriente e África. A petroquímica, a aviação, o transporte marítimo, a indústria pesada e uma parte significativa do sector logístico continuam altamente dependentes dos derivados do petróleo.
A guerra na Ucrânia, as tensões no Médio Oriente, os ataques a infra-estruturas energéticas e as perturbações nas cadeias globais de abastecimento demonstraram, nos últimos anos, que a segurança energética voltou a ocupar um lugar central nas prioridades dos governos.
Como observou recentemente o economista energético português António Costa Silva, antigo ministro da Economia de Portugal, à margem da apresentação do estudo ‘Banca em Análise’, da Deloitte, “a transição energética não elimina a necessidade de segurança energética; pelo contrário, torna-a ainda mais relevante”. A realidade dos mercados mostra que os países procuram simultaneamente descarbonizar as suas economias e garantir abastecimento energético estável.
ANGOLA PROCURA INVERTER O DECLÍNIO DA PRODUÇÃO
Em Angola, o petróleo continua a ser o principal pilar da economia nacional. Segundo dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG), o sector continua a representar a esmagadora maioria das exportações do país, uma parcela substancial das receitas fiscais e a principal fonte de entrada de divisas.
Contudo, o país enfrenta um desafio estrutural conhecido: o declínio natural da produção dos campos maduros. A produção angolana, que chegou a ultrapassar os 1,8 milhões de barris por dia em anos anteriores, estabilizou nos últimos anos em níveis significativamente inferiores. Para responder a este cenário, o Executivo angolano e a ANPG lançaram um conjunto de reformas destinadas a aumentar a atractividade do sector.
A introdução de novos incentivos fiscais, os concursos públicos para blocos petrolíferos, a flexibilização de alguns regimes contratuais e a aposta na exploração de novas bacias sedimentares procuram criar condições para prolongar o ciclo de investimento no sector.
Nos últimos anos, operadores internacionais como a TotalEnergies, a Chevron, a ExxonMobil, a Azule Energy e a Equinor mantiveram investimentos relevantes em Angola, demonstrando que o país continua a ser considerado uma jurisdição atractiva no contexto africano.
Para especialistas do sector, o sucesso desta estratégia dependerá menos da descoberta de grandes reservas e mais da capacidade de Angola em manter estabilidade regulatória, previsibilidade fiscal e eficiência institucional.
O GÁS NATURAL GANHA PROTAGONISMO
Se o petróleo continua central, o gás natural emerge como uma das principais apostas da próxima fase da indústria energética angolana. A entrada em operação de novos projectos ligados ao gás e a expansão das actividades da Angola LNG reflectem uma tendência observada em todo o mundo: o gás é cada vez mais encarado como um combustível de transição.
A própria Agência Internacional de Energia reconhece que o gás natural deverá desempenhar um papel relevante nas próximas décadas, sobretudo em países que procuram reduzir emissões sem comprometer a segurança energética.
Para Angola, o desenvolvimento desta indústria representa uma oportunidade adicional de diversificação das fontes de receita dentro do próprio sector energético.
A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA SERÁ MAIS LENTA DO QUE MUITOS ANTECIPAVAM
Uma das conclusões mais consensuais entre os especialistas é que a transição energética não será linear. Embora os investimentos em energias renováveis estejam a crescer rapidamente, a procura mundial de energia continua igualmente a aumentar.
Segundo diversos cenários internacionais, o crescimento económico e demográfico dos países emergentes exigirá um mix energético mais diversificado, onde combustíveis fósseis e energias renováveis coexistirão durante várias décadas.
Neste contexto, a principal questão para países produtores como Angola não é abandonar o petróleo, mas produzir de forma mais eficiente, sustentável e competitiva.
A redução da intensidade carbónica das operações, o combate à queima de gás, a electrificação das infra-estruturas petrolíferas e a adopção de práticas ambientais mais rigorosas tornaram-se factores decisivos para a manutenção da competitividade internacional.