“No ambiente offshore, a experiência é importante, mas a vigilância constante é indispensável”
O engenheiro de petróleo Fernando Fabiano, especialista em perfuração e completação de poços, é o nosso interlocutor. Trata-se de uma figura ligada ao sector com experiência acumulada de mais de 20 anos. Nesta conversa, fala na primeira pessoa sobre os meandros do trabalho no offshore e os desafios que enfrenta em 28 dias ininterruptos de actividade laboral.
O acaso levou Fernando Fabiano a ingressar no sector petrolífero depois de ter concluído o curso médio na especialidade de electricidade, no Instituto Médio Industrial de Luanda (IMIL), também conhecido por Makarengo.
No afã de ingressar no mercado de trabalho, não sendo este um sonho de infância (petróleos), a oportunidade surgiu num momento importante da sua vida, quando apenas procurava um caminho profissional que lhe permitisse crescer, ajudar a sua família e construir um futuro sólido.
Eis que, após vários meses de procura, quando transcorria o ano de 2004, é chamado para um processo de selecção ligado à indústria petrolífera. Na sequência, acaba por ser seleccionado para integrar um programa internacional de formação da Transocean. “Foi aí que tive o primeiro contacto directo com o mundo do petróleo”, conta.
Assim, o que inicialmente parecia apenas uma oportunidade de emprego transformou-se numa carreira e numa paixão profissional. À medida que foi conhecendo a complexidade das operações, a tecnologia envolvida, a importância da segurança e o impacto económico da indústria, percebeu-se que estava diante de um sector extraordinário, capaz de desafiar e desenvolver uma pessoa todos os dias.
TEORIA VS PRÁTICA
Aliar os conhecimentos teóricos à prática além de ter sido um desafio, foi uma das experiências mais marcantes de sua vida, sendo que, durante a formação, aprendem-se conceitos, procedimentos, cálculos, normas e fundamentos técnicos. Mas, quando se chega ao campo, percebe-se rapidamente que a realidade operacional tem uma dinâmica própria.
“A teoria ajuda-nos a compreender os processos. A prática ensina-nos a lidar com pessoas, pressão, responsabilidade e tomada de decisão em tempo real. Lembro-me de observar atentamente os profissionais mais experientes. Muitas vezes, detalhes minuciosos aprendidos no terreno tinham um impacto enorme na segurança e na eficiência da operação. Foi aí que percebi que conhecimento técnico e experiência prática não competem entre si. Pelo contrário, complementam-se”, revela, ao acrescentar que a verdadeira aprendizagem acontece quando se consegue unir aquilo de que se estuda com o que se vive diariamente na operação.
PLATAFORMA
Num primeiro contacto com o offshore, a primeira impressão com que ficou “foi de enorme respeito”, destaca Fernando Fabiano, ao dar nota de que, quando chegou pela primeira vez a uma unidade, ficou impressionado com a dimensão da estrutura, o movimento constante das operações e o ambiente altamente organizado. O som dos equipamentos, a actividade contínua e a presença de sistemas críticos em funcionamento criam uma sensação imediata de responsabilidade, recorda.
“Percebi rapidamente que não estava apenas num local de trabalho. Estava num ambiente em que cada procedimento existe por uma razão e em que cada decisão pode ter impacto directo na segurança das pessoas, na produção e no meio ambiente. Também senti humildade. Entendi que tinha muito para aprender e que precisava ouvir, observar e absorver conhecimento antes de pretender dominar qualquer função”, reconheceu o engenheiro.

DESAFIOS NO OFFSHORE
Para Fernando Fabiano, o que muitas pessoas paralelas ao sector pensam é que os maiores desafios no offshore sejam apenas técnicos, mas a realidade é mais ampla. Embora admita, existem desafios operacionais importantes, entre os quais trabalhar com equipamentos complexos, gerir riscos, cumprir procedimentos rigorosos e tomar decisões sob pressão.
“Mas há também desafios humanos. Passar semanas longe da família, adaptar-se à rotina offshore, manter o equilíbrio emocional e continuar focado mesmo em períodos de cansaço são aspectos que exigem maturidade”, adianta.
Por outro lado, outro grande desafio que se experiencia é o de nunca permitir que a rotina gere excesso de confiança. “No ambiente offshore, a experiência é importante, mas a vigilância constante é indispensável. É precisamente quando tudo parece normal que a atenção deve permanecer elevada”, alerta.
ROTINA VS “MÃO NA MASSA”
A rotina, ou colocar “mão na massa”, como sói dizer-se, é um processo bastante estruturado, pois as operações nunca param, indica o também perfurador de poços, ao explicar que os trabalhos são rendidos mediante turnos de 12 horas, ao passo que a unidade funciona 24 horas por dia.
“O dia começa com reuniões de alinhamento, análise de riscos, revisão das actividades planeadas e actualização do estado operacional. Durante o turno, realizamos inspecções, monitorização de sistemas, acompanhamento de operações e resolução de desafios que surgem naturalmente ao longo do dia”, salienta.
Fernando Fabiano diz ainda que, em períodos de descanso, cada profissional procura manter algum equilíbrio, sendo que alguns praticam exercícios físicos, enquanto outros leem, estudam ou aproveitam para falar com a família. Com o tempo, aprende-se a viver dentro de uma rotina própria, quase como uma pequena comunidade no meio do oceano.

“MATAR SAUDADES”
Hoje, diferente do passado, com os avanços tecnológicos, tem sido possível que os operadores no offshore tenham contacto com o exterior, permitindo uma aproximação maior, sobretudo com a família, a razão de 28 dias sem que possam estar juntos fisicamente.
“As tecnologias de comunicação permitiram aproximar os profissionais offshore das suas famílias. Dependendo da unidade e das condições disponíveis, é possível utilizar internet, aplicações de mensagens, chamadas de voz e videochamadas. Pode parecer algo simples para quem está em terra, mas no mar esses momentos têm um valor enorme. Uma conversa rápida com a família, uma fotografia dos filhos ou uma mensagem de incentivo podem fazer uma diferença significativa no bem-estar emocional de quem está embarcado”, manifesta, adiantando que essas ligações ajudam a reduzir não só a distância, mas também lembrando-os dos motivos pelos quais fazem tantos sacrifícios.
UM MOMENTO MARCANTE
Mais de 20 anos de trabalho offshore. A pergunta que não se cala é a indicação de um momento inusitado que tenha marcado a vida profissional de Fernando Fabiano. Ele peremptoriamente alude:
“O offshore é um ambiente em que o inesperado pode surgir de várias formas. Uma das situações que mais me marcou foi perceber como pessoas de diferentes países, culturas, idiomas e experiências conseguem trabalhar juntas como uma única equipa quando a operação exige. É impressionante observar como profissionais que cresceram em contextos completamente diferentes conseguem unir-se em torno de um objectivo comum, comunicando-se por meio da disciplina operacional, do profissionalismo e do respeito mútuo. O offshore ensina-nos que, quando existe propósito, a colaboração supera diferenças culturais, linguísticas e geográficas. Essa é uma das experiências humanas mais ricas que vivi ao longo da carreira”, revela.

RESILIÊNCIA
O petróleo é ainda o maior activo de exportação de Angola; no entanto, o nosso interlocutor acredita que este recurso continuará a desempenhar um papel fundamental durante muitos anos.
Embora o mundo esteja a viver uma transição energética importante, essa transformação será gradual, segundo Fernando Fabiano. Por isso, apesar do crescimento das energias renováveis, o petróleo e o gás continuam essenciais para diversos sectores da economia global.
“No caso de Angola, o petróleo continua a representar uma fonte estratégica de receitas, investimento e desenvolvimento. No entanto, acredito que o grande desafio não é apenas continuar a produzir petróleo, mas utilizar os recursos gerados para fortalecer outros sectores da economia. O petróleo pode continuar a ser uma alavanca importante para o país. Mas o verdadeiro sucesso estará na capacidade de transformar essa riqueza em educação, indústria, tecnologia, infra-estruturas e oportunidades para as próximas gerações. É por isso que costumo dizer que o petróleo é um recurso valioso, mas o desenvolvimento humano continua a ser o investimento mais importante de todos”, conclui.
INSIDE PERFIL
Fernando Fabiano é engenheiro de Petróleos, consultor e autor. É casado e pai de quatro filhos. Ao longo da sua carreira na indústria petrolífera, acumula experiência em operações offshore, gestão operacional, segurança, liderança de equipas e desenvolvimento de profissionais em ambientes de elevada exigência técnica.

Participou em projectos ligados à perfuração, completação e optimização de operações, desenvolvendo visão abrangente sobre os desafios técnicos, humanos e estratégicos que caracterizam a indústria energética moderna.
A sua experiência foi construída directamente no terreno, acompanhando operações críticas em que a preparação, a disciplina e a tomada de decisão foram factores determinantes para o sucesso e a integridade operacional.
Para si, o verdadeiro sucesso profissional deve caminhar lado a lado com os valores familiares, a responsabilidade pessoal e a construção de um legado que ultrapasse a carreira.
Por essa razão, tem sido reconhecido pela sua capacidade de transformar experiências práticas em ensinamentos acessíveis, dedicando-se à partilha de conhecimentos sobre a carreira, liderança, segurança operacional, desenvolvimento humano, gestão financeira e preparação para os desafios do setor petrolífero.
É autor do livro “Perfurar & Produzir Para Viver – A Vida Entre Tubos, Lama e Decisões”, uma obra que reúne experiências reais, lições aprendidas e reflexões sobre a vida offshore, revelando os bastidores de uma indústria onde decisões, preparação e disciplina podem fazer toda a diferença (que será lançada em breve).
Por meio da escrita, mentoria e consultoria, Fernando Fabiano procura inspirar profissionais a desenvolver competências técnicas, equilíbrio emocional e uma mentalidade orientada para a excelência.
“O sucesso não se constrói apenas com conhecimento técnico. Constrói-se com carácter, disciplina, visão e a capacidade de tomar decisões certas quando mais importa”, esta é a frase identitária de Fernando Fabiano.