Transição Energética Avança, mas Fósseis Ainda Movem a Indústria

O tema da transição energética foi introduzido no debate público internacional na década de 1970, tendo como foco a segurança energética. Foram realizados investimentos em investigação para o desenvolvimento de fontes alternativas e biocombustíveis. Entretanto, quase quarenta anos depois, ou seja, em 2006, a percentagem de utilização de combustíveis fósseis, nomeadamente petróleo, carvão mineral e gás natural, representava cerca de 82% de todo o consumo de energia mundial, segundo dados do Banco Mundial.

Actualmente, e passados cerca de vinte anos desde 2006, embora se observe uma evolução positiva, sobretudo na produção de electricidade a partir de fontes limpas, os combustíveis fósseis continuam a ter um peso determinante na matriz energética mundial, representando aproximadamente 80% do motor logístico e industrial global. Isto demonstra que as energias limpas, nomeadamente as energias renováveis e a energia nuclear, são responsáveis por cerca de 20% da matriz energética global.

Importa aqui clarificar a distribuição do peso destas fontes, nomeadamente: o petróleo (cerca de 36%), o carvão mineral (27%), o gás natural (23%), a energia nuclear (8,5%) e a energia hidroeléctrica (6,3%

A transição energética tem um fundamento predominantemente económico, embora muitas vezes os seus objectivos sejam apresentados sob o argumento da sustentabilidade ambiental. Ou seja, o objectivo da descarbonização, que visa mitigar o aquecimento global através da redução das emissões de gases com efeito de estufa, é essencialmente ambiental. Já os objectivos relacionados com a segurança e independência energética — que visam reduzir a dependência de países detentores de reservas e com grande capacidade de influência na produção de combustíveis fósseis — bem como o objectivo da inovação tecnológica, são essencialmente económicos.

Ou seja, o custo e o retorno do investimento em energias limpas determinarão o ritmo da transformação da matriz energética global. E digo isto olhando para os principais entraves a uma transição total, que considero pouco provável nos próximos 50 anos.

Os custos elevados com infra-estruturas, a intermitência das fontes limpas devido à dependência de factores climáticos — o que exige grandes sistemas de armazenamento e centrais térmicas complementares —, assim como a dependência económica e social, os desafios na cadeia de abastecimento e a densidade energética e armazenamento permitem-me afirmar, sem sombra de dúvida, que “a transição energética é irreversível, mas os combustíveis fósseis continuarão a ser o motor logístico e industrial do mundo”.

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O facto de o debate público sobre a transição energética ter tido início na década de setenta e a matriz global continuar a ser predominantemente dominada pelos combustíveis fósseis não nos permite considerar o processo como um insucesso. Aliás, volto a referir que não se trata de sucesso ou insucesso, mas de um processo em curso, no qual ambas as fontes continuarão a coexistir de forma complementar.

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